A ousada imaginação de Sissy Jupe - João Aquino

 


No centro da acinzentada cidade de Coketown havia uma flama, vibrante e aquecedora, entre trabalhadores braçais, banqueiros, políticos e autômatos: era Sissi Jupe, filha dum palhaço decadente, integrante duma companhia circense, criança engenhosa e compreensiva. 

Sissi é a heroína do romance “Tempos Difíceis”, de Charles Dickens, cujo tema capital é o esmorecimento da imaginação ante a dinâmica da vida urbana, utilitária e pragmática. Em Coketown era proibido imaginar e a história inicia-se já com o seguinte epigrama, que sintetiza um dos pensamentos mais nocivos de nossa época: 

“Nesta vida não queremos nada além dos fatos, senhor; nada além dos fatos”. 

É por isso que Dickens retratou-a sem colorido algum, monótona e repetitiva: 

“Havia largas ruas semelhantes umas às outras, e ruelas ainda mais semelhantes umas às outras, onde moravam pessoas também semelhantes umas às outras: que saíam e entravam nos mesmos horários, produzindo os mesmos sons nas mesmas calçadas, para fazer o mesmo trabalho, para quem cada dia era o mesmo de ontem e de amanhã, e cada ano, o equivalente do próximo e do anterior”. 

No entanto, para além de uma metrópole, Coketown simboliza um estado mental, uma lente pela qual vemos a realidade: é a da utilidade, do cálculo e do pragmatismo. É símbolo, consequentemente, da mentalidade de quem não consegue ultrapassar a esfera mais imediata da vida e, por isso, se esquece de verdades elementares – todo mundo vive um pouco desse modo. 

Há quem concentrando-se numa rotina, deixe de lado tudo o que não pareça ter valor imediato; termine o que deveria terminar, durma, e recomece outra vez. Nesse entorpecimento maquinal, a imaginação é abandonada por não dar frutos palpáveis, como dinheiro, bem-estar, status, etc. 

A imaginação, de maneira geral, é a capacidade humana de conceber e compreender realidades possíveis; e, embora tenha um papel central na educação da personalidade humana e no exercício das virtudes, exige esforço e seus resultados demoram a aparecer, demoram mais tempo do que costumamos lhe conceder. 

Dizia o filósofo Ortega y Gasset: “A reabsorção da circunstância é o destino concreto do homem”. Em outras palavras, a maneira pela qual absorvemos os acontecimentos da vida determina a forma final dela, o nosso destino. A personalidade forma-se, então, com a harmonização dessas circunstâncias, em que estamos inseridos e que são incontroláveis, com nossos objetivos últimos. 

Nós, os seres humanos, estamos acima dos fatos. Podemos escolher uma vida ideal e persegui-la, lutando contra nossos meios, ultrapassando-os e vencendo-os; ou podemos sucumbir a eles, vivendo de contingências. A identificação desse ideal e a conciliação dele com a sucessão de intempéries diárias é obra da imaginação. 

É que, por causa dela, concebemos uma série de existências possíveis, de caminhos possíveis, de alternativas. E através do balanço dessas possibilidades com o que efetivamente experimentamos dia a dia, vamos ganhando uma forma concreta, uma substância, um caráter. 

Sem a imaginação para tecer a obra da nossa vida desde cima, seríamos como linhas dispersas, desunidas e embaralhadas; mas viver não se resume a traçar nosso próprio destino. A vida também se destina ao próximo, à família, aos amigos. 

Porque a imaginação cultivada concebe e analisa diversas possibilidades de ações, reações, desejos, intenções, dilemas, ela nos afasta das exigências mais imediatas e nos permite uma compreensão maior da vida humana. E essa compreensão, por sua vez, nos permite a ação virtuosa. 

É como se, diante de um acontecimento, pela imaginação nós lhe antecipássemos os resultados e elegêssemos o mais desejável, o mais virtuoso – processo não necessariamente consciente. Por isso, ela é a base do autocontrole; e, por meio dela, podemos mergulhar na realidade do outro, compreendê-lo e amá-lo efetivamente. 

Portanto, viver concentrado apenas nos fatos, no presente, no agora, é um empobrecimento da vida humana. 

Imaginar é proteger-se da mesquinharia com a armadura do infinito. G. K. Chesterton dizia que: “O Poeta pretende apenas meter a cabeça no céu, enquanto o lógico esforça-se para meter o céu na cabeça: e a cabeça acaba por estourar”. 

Ele se referia à infinitude de possibilidades que nos dá a imaginação, às quais nos asseguram a sanidade; e o completo aprisionamento a que nos leva uma vida apenas calculista. 

Sissi Jupe, porém, a heroína de “Tempos Difíceis”, cercada de lógicos, ousava compreendê-los e era a única que podia realmente ajudá-los, que podia realmente satisfazer-lhes as demandas interiores. 

Enquanto o mundo dos fatos ruía, Sissi estava protegida pela infinitude do imaginar; podia transitar entre os dilemas do presente e a essência do ser humano, a fim de orientar a si mesma e aos outros personagens. 

Ela simboliza esse movimento da imaginação que nos ajuda a mergulhar na realidade, a manter a nós e aos nossos companheiros acima das dificuldades do dia a dia, para que vejamos com clareza para onde vamos e como agimos. 

Daí a necessidade de separarmos um pouco do nosso tempo para educarmos a imaginação pela leitura de obras de ficção. A imaginação educada pela literatura é um remédio aos males do mundo moderno. 


João Aquino.



João Aquino










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